O Ritmo do Autismo

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Najla Gergi Krouchane
Psicanalista de crianças, adolescentes e adultos

            Neste breve relato são explanadas concepções acerca da temática do autismo a partir da perspectiva conceitual da psicanalista francesa Françoise Dolto, que aborda a importância do ritmo na constituição do sujeito e como pode-se observar o ritmo nos casos clínicos de autismo.

            Os ritmos estão presentes no nosso cotidiano. A própria rotina representa uma forma ritmada de ações. Dolto (2013) afirma que o ritmo é constitucional para o psiquismo e a subjetividade do ser. A infância, por ser um tempo de desenvolvimento, deve ser subscrita por ritmos como formas de organização simbólica, desde que o ritmo ganhe um caráter singular.

            Para Dolto (2018) tudo é linguagem, desde a fala propriamente dita, como também as sensações vivenciadas no útero e nas primeiras experiências da infância. O ritmo é uma forma de linguagem, representado nos atos e pela linguagem falada que emana enunciações de ordem simbólica.

Dolto, em seu livro “Seminário de Psicanálise com Crianças” (2013), discute sobre a importância dos ritmos na constituição do sujeito. A psicanalista afirma que os ritmos são essenciais na constituição do sentimento de segurança e do desenvolvimento do narcisismo fundamental, que constrói as primeiras representações da imagem inconsciente do corpo – base psíquica do sujeito. A sensação de segurança produzida pelos ritmos auxilia a criança em situação de desamparo, como por exemplo quando a mãe ou a babá balançam a criança que chora e esse ato faz a função de acalento. A música e a melodia têm uma essência ritmada, que é também uma forma de acalentar a criança pela representação advinda, principalmente, da voz da mãe.

Um dos primeiros ritmos vivenciados pela criança são os batimentos cardíacos da mãe, dentre outros ritmos pulsativos e olfativos que vão gerando marcas psíquicas inconscientes, bem como as demais sensações experimentadas no ventre da mãe. Essas marcas psíquicas são traços que a criança consegue levar consigo após o nascimento – momento de angústia pela sensação de morte. E diante de uma situação de desamparo, as repetições das experiências intrauterinas significam a tentativa de retorno ao útero. Nesse contexto, Dolto (2013) afirma:

…tendemos a reencontrar esse batimento cardíaco fetal nas grandes emoções ou por ocasião de uma febre alta: é o batimento de coração mais próximo daquele que é ouvido in útero. A criança perde, pois, o ritmo fetal, a estreiteza do lugar em que estava, a perfusão umbilical; conserva a audição – se não for surda; descobre o cheiro da mãe com o ar, a respiração. Mas o nascimento é realmente uma morte, uma morte daquilo que ela percebia antes (Dolto, 2013, p. 342).

            As representações inconscientes dos ritmos são as primeiras marcas psíquicas do sujeito e farão parte de sua subjetividade. Nessa perspectiva, Dolto (2018) afirma que para constituir uma subjetividade deve-se sempre supor sujeito, independentemente da idade ou condição do ser. É na aposta do sujeito que o desejo pode emergir, desde que haja a mediação da linguagem, pois a linguagem humaniza o ser, por nomear vivências e sensações ainda não representadas.

Dessa forma, como pensar o sujeito no caso de autismo? No autismo encontra-se, principalmente, o fechamento para as relações com os outros (faltantes), repetições e atos compulsivos – que se interrompidos geram alto grau de angústia. O autismo tem a marca de uma ruptura fundamental e precoce que não foi nomeada – simbolizada. Nesse contexto, Dolto (2013) afirma:

Para que haja autismo, é preciso ter havido uma ruptura, às vezes muito precoce, na relação mãe-criança. Foi sem dúvida no momento dessa ruptura não falada que o Outro faltante, a mãe, foi substituída por uma parte do corpo da própria criança (Dolto, 2013, p.217).

A energia libidinal do autista é investida no próprio corpo, por isso a dificuldade do investimento no laço social. O autista em sua forma de ser é um sujeito, pois há marcas psíquicas inconscientes, principalmente advindas das experiências no útero, que operam de formas diferentes. Ou seja, existe uma singularidade no autismo, como existe a singularidade de cada autista.

Em casos de autismo, é frequente o balanço ritmado, falas e ações repetitivas. Sabe-se que o ritmo é inerente a todos os humanos, porém, os ritmos compulsivos no autismo são formas de evitar situações ameaçadoras ou de desamparo. O contato com o outro faltante é considerado uma ameaça contra o Eu. Os ritmos, nesse aspecto, são formas de retorno à vida fetal, uma forma de estar seguro (Dolto, 2013). A criança autista possui uma sociedade imaginária a partir de suas variadas sensações viscerais, que adquirem significado. Dolto (2013):

Uma criança autista é uma criança que possui uma sociedade imaginária graças às suas variações viscerais, que adquirem sentido por causa de certas percepções do mundo exterior. Para um sujeito, a função simbólica consiste em dar sentido ao encontro, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, de algumas de suas percepções sensoriais parciais do mundo exterior, ligadas a uma sensação corporal, agradável ou desagradável (Dolto, 2013, p.109).

No percurso deste texto foram apresentadas concepções sobre a importância do ritmo na constituição psíquica, e ainda sua importância nos casos de autismo. É válido afirmar que o ritmo pode representar uma forma de borda de proteção ao Eu. Portanto, tornando-se necessário para evitar a angústia. Nessa perspectiva, deve-se aceitar o ser independentemente do contexto social. Se o ritmo assegura a existência do autista, então é preciso criar formas de contato através dos ritmos e não tentar eliminá-los.

Referências

DOLTO, F. Seminário de psicanálise com crianças. Tradução Marcia Valéria Martinez de Aguiar. 1. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013. 504 p.

DOLTO, F. Tudo é linguagem. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2018. 184 p.

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