Alexandros Nikolaos Methenitis[1]
Escolher uma formação em psicanálise ultrapassa critérios meramente acadêmicos ou mercadológicos. A apresentação de cursos no formato de “produtos educacionais” frequentemente não corresponde à realidade do ofício do psicanalista, que exige um percurso ético, clínico e subjetivo. Tal percurso implica o confronto com o próprio inconsciente, o que não se realiza apenas por meio da teoria, sendo indispensáveis a análise pessoal e a prática clínica supervisionada.
Recentemente, o Ministério da Educação autorizou a criação de bacharelados em psicanálise, a maioria deles no formato EAD, com aulas gravadas e sem a exigência de análise pessoal (apenas recomendação). Após a mobilização de diversas associações psicanalíticas e escolas de psicanálise, esses cursos não mais se confundem com a formação do psicanalista e passaram a ser denominados “Bacharelados em Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais (DOU, 2026).
Desde 1920, com as Clínicas Públicas de Freud (Policlínica de Berlim), a formação do psicanalista tornou‑se inseparável do chamado tripé psicanalítico: Análise pessoal, estudo contínuo e supervisão clínica. Freud enfatiza que a psicanálise não pode ser transmitida como um saber meramente técnico, pois somente aquele que se confrontou com o próprio inconsciente pode sustentar a escuta clínica (Freud, 1937).
David Zimerman, sobre a formação do psicanalista, cita Bion que, em seus seminários clínicos, dizia que a prática clínica é muito difícil e que conhecimento teórico não equivale a ser um bom analista, pois na clínica sempre se lidará com alguma situação desconhecida, perigosa e imprevisível. Mais do que acervo de conhecimentos, é necessária a adequada atitude psicanalítica, sendo a análise pessoal que fornece as mínimas condições necessárias para suportar que virá do inconsciente do paciente e dele mesmo (Zimerman, 2007).
Dessa forma, ao escolher uma escola ou curso de psicanálise, é fundamental verificar se a análise pessoal é exigida como elemento central do percurso e se a instituição sustenta uma ética que oriente a prática clínica.
Recomendo priorizar escolas que ofereçam aulas presenciais, pois elas favorecem a dimensão intersubjetiva da transmissão do saber psicanalítico em grupo ou, no caso do curso ser on‑line, que sejam encontros virtuais em tempo real em vez de ensino EAD com aulas gravadas.
Deve‑se evitar cursos com viés religioso ou que prometam atalhos, garantias de sucesso financeiro ou que prometem autoridade no exercício da prática clínica após terminado o curso, pois quem poderá te autorizar será o teu inconsciente através da análise pessoal e não há garantias desta passagem subjetiva de analisando para psicanalista. Portanto, recomendo a escolha de um psicanalista experiente.
Por fim, é importante considerar que a formação do psicanalista não se encerra com a conclusão de um curso, a realidade da prática clínica exige uma formação continuada, um percurso, com participação em grupos de estudo e com a convivência com outros psicanalistas, através de congressos, encontros e seminários, onde há o compartilhar do saber psicanalítico e das experiências clínicas, onde os psicanalistas aprendem uns com os outros.
Referências:
- FREUD, S. Análise terminável e interminável (1937). In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996
- BRASIL. Portaria SERES/MEC 03, de 23/01/2026. Mudança de nomenclatura para os bacharelados em psicanálise. Diário Oficial da União (DOU): Sessão 1, p. 33, 26/01/2026
- ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos [recurso eletrônico]: teoria, técnica e clínica :uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 2007.
[1] Psicanalista pelo NPP – Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas. Especialista em Psicanálise pela Faculdade Einstein, em Filosofia da Educação pelo Claretiano e Filosofia da Psiquiatria, Psicologia e Psicanálise pelo Instituto ESPE. Engenheiro pela PUCSP. Faz parte do corpo docente do NPP, 2. Vice-presidente do SINPESP – Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo e membro da IARPP – International Association for Relational Psychoanalysis and Psychotherapy. Contato: alex.psicanalista@gmail.com



