Autismo e Psicanálise

o autismo e a psicanalise

Renata Moreira da Costa Budoia
Psicanalista

Você já parou para pensar que cada pessoa possui uma maneira singular de perceber, sentir e interagir com o mundo? Conscientizar-se é buscar conhecimento e compreensão para desarmar o preconceito e valorizar verdadeiramente a diversidade.

Ao escutar a palavra autismo o que vem a sua mente?

Para começar, é preciso fazer uma distinção entre o diagnóstico nosológico da psiquiatria e o diagnóstico estrutural da psicanálise. Para a psiquiatria – que é uma área da medicina dedicada ao estudo e ao tratamento de doenças e transtornos mentais, emocionais e comportamentais -, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) está previsto na CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados a Saúde), um sistema de códigos que categoriza doenças e transtornos. Nesse contexto, a definição de transtorno refere-se à alteração no funcionamento normal de um sistema ou organismo, que pode envolver aspectos comportamentais, mentais ou neurológicos.
            Na visão da psicanálise lacaniana, o autismo não é uma doença, um transtorno ou um defeito a ser corrigido, curado ou eliminado, mas um funcionamento subjetivo singular. Ela entende o sujeito autista como um sujeito completo com sua maneira própria de existir, que traz alguns elementos invariáveis em sua forma de responder ao mundo, o que possibilita entender o autismo como uma estrutura, tal qual a neurose, a psicose e a perversão. Segundo Lacan, o sujeito se forma a partir do encontro com a linguagem, em sua relação com as palavras, constituindo-se, assim, como uma resposta em ato. (LACAN, 1998a; 1998b) E o que determinará sua estrutura é especificamente o que resulta dessa resposta. Cada estrutura é regida por lógicas diferentes em relação ao mundo, no caso das neuroses o que se faz dessa resposta são os sintomas neuróticos, nas perversões o fetiche, nas psicoses o delírio e nos autismos a borda autística – caracterizada pelo agrupamento de três elementos: o objeto autístico, o duplo e o interesse específico. As condutas de imutabilidade e a construção dessa borda tem como função principal ser um anteparo ao mundo exterior, uma proteção contra a angústia, porém, são também o canal que leva o autista ao mundo e por isso devem ser avaliados com cuidado e, acima de tudo, respeitados. (MALEVAL, 2015, p. 32 e 33).

Apesar das semelhanças observáveis por serem os autistas pertencentes a uma mesma estrutura, é uma premissa da psicanálise a escuta da singularidade de cada um, pois cada sujeito é único. E é justamente por esse motivo que não é possível estabelecer um tipo específico e único de tratamento a todos os autistas. O risco da hegemonia de uma abordagem terapêutica comportamental, por exemplo, é promover o apagamento da subjetividade do indivíduo em troca de alguém de desempenha funções pré-estabelecidas mecanicamente. Diferentemente de outras terapias, que buscam promover adaptações do sujeito autista, a psicanálise tem como primeiro objetivo escutar cada sujeito. E somente, a partir dessa escuta oferecer suporte para que ele, dentro de suas possibilidades, faça ligações e laços com o mundo e se relacione da melhor forma possível para ele com o ambiente em que vive.

Para isso não se pode prescindir da escuta do autismo pelos autistas. Ouvir, assistir e ler o que esses sujeitos nos dizem sobre eles mesmos é imprescindível para efetivamente compreendermos e eliminarmos os preconceitos.

Referências

LACAN, Jacques. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise: Seminário 11. Tradução de Jair de Jesus Mari. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998a.

LACAN, Jacques. O ato psicanalítico: Seminário 15. Tradução de Jair de Jesus Mari. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998b.

MALEVAL, J.C. Por que a hipótese de uma estrutura autística? Opção lacaniana online nova série, Ano 6, n. 18, nov. 2015. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_18/Por_que_a_hipotese_de_uma_estrutura_autistica.pdf. Acesso em 20 de mar. 2026.

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